Quem subiu ao céu? Uma reflexão teológica sobre João 3:13

A declaração de Jesus em João 3:13 tem gerado perguntas ao longo dos séculos: se “ninguém subiu ao céu, senão o Filho do Homem”, como entender os casos de Enoque, Elias e a privacidade de Elias na Transfiguração? Este artigo apresenta uma síntese das respostas encontradas na teologia reformada, considerando também o ensino das Escrituras sobre o seio de Abraão, o terceiro céu e a expressão “levou cativo o cativeiro”.

A compreensão da escatologia bíblica e do estado intermediário das almas exige discernimento e base sólida nas Escrituras. Jesus afirma, em João 3:13, que “ninguém subiu ao céu senão o Filho do Homem”, mesmo diante das narrativas do Antigo Testamento que relatam a ascensão de Enoque e Elias. Como harmonizar essas informações? Neste artigo, abordaremos essa questão de forma sistemática e pastoral.

1. Declaração de Jesus (João 3:13)

“Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu.”

Jesus é o único com acesso pleno, eterno e consciente à habitação celestial (terceiro céu). Enoque e Elias não subiram ao céu nesse sentido pleno e glorificado.

2. Casos de Enoque e Elias

Enoque (Gn 5:24; Hb 11:5):
O que aconteceu: “Foi trasladado para não ver a morte”
Interpretação reformada possível: Foi preservado por Deus ainda, mas não glorificado

Elias (2Rs 2:11):
O que aconteceu: “Subiu ao céu em redemoinho”
Interpretação reformada possível: Transladado ao paraíso (seio de Abraão), não ao céu glorificado

3. Transfiguração (Mateus 17:1–9)

Elias e Moisés aparecem — Representam a Lei (Moisés) e Profetas (Elias)
Detalhes: Estavam com Jesus em glória no monte
Interpretação teológica:
Visão profética temporária (cf. Mt 17:9)
Testemunho da revelação messiânica de Jesus

Mesmo Elias e Moisés dependem de Cristo

A parte deles não contradiz João 3:13 , porque:

  • Eles aparecem em submissão e referência a Cristo.
  • plenitude da salvação e da entrada no céu glorificado depende da obra de Jesus — que ainda não havia sido completada na cruz naquele momento.

Conclusão resumida:

  • Elias apareceu na transfiguração como representante profético, não porque já estava glorificado nos céus como Jesus.
  • O que Jesus diz em João 3:13 se refere ao acesso pleno, consciente, eterno e com autoridade ao céu, o que só Ele possui.
  • A propriedade de Elias foi uma exceção sobrenatural, e não uma refutação à declaração de Jesus.

4. O Seio de Abraão (Lucas 16:22–26) — O Seio de Abraão como lugar intermediário

Conceito
Seio de Abraão:
 Lugar de consolo para os justos mortos antes de Cristo
Rico no Hades: Lugar de tormento para os ímpios, separado por abismo
Estado intermediário: Aguardava a redenção completa em Cristo

Na parábola do Rico e Lázaro:

“Morreu também o mendigo, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão (…). E no Hades, estando em tormentos, clamou os olhos e viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio.”

Isso mostra dois compartimentos diferentes:

  • Um lugar de consolo (Seio de Abraão).
  • Um lugar de tormento (onde estava o rico).

Ambos ainda não são o céu ou o inferno final, mas são estados conscientes antes do juízo final e antes da ressurreição.

5. Terceiro Céu e a Apresentação por Cristo

2Co 12:2–4: Paulo viu o paraíso (terceiro céu), morada plena de Deus
Hb 10:19–20: Jesus abriu o acesso ao Santo dos Santos com seu sangue
Ef 4:8–10: “Levou cativo o cativeiro” = converteu os justos ao céu glorificado
Hb 11:39–40: Os santos do esperado passaramm a redenção completa em Cristo

Paulo diz que foi arrebatado:

“ao terceiro céu (…), ao paraíso, e escolheu palavras inefáveis.”

A maioria dos teólogos entende que:

  • “Terceiro céu” = plena presença de Deus.
  • Este lugar só ficou acessível após a ascensão de Cristo (cf. Hebreus 9:8, Hebreus 10:19–20).

Cristo inaugurou o acesso ao céu pleno

A Bíblia diz que o caminho para o Santo dos Santos foi aberto por Cristo :

“tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus…” (Hebreus 10:19)

Antes disso, mesmo os justos estavam em “espera” da redenção completa. Como diz Hebreus 11:39–40:

“Todos estes (…) não alcançaram a promessa, provando Deus coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados.”

Cristo desceu às partes inferiores (Efésios 4:8–10)

Este texto é interpretado por muitos como a descida de Cristo ao Hadeslibertando os justos do Seio de Abraão e levando-os ao céu glorificado :

“Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro…” (Efésios 4:8)

Conclusão teológica:

  • Sim, existia um “céu” ainda não inaugurado para os homens — o terceiro céu/plena presença de Deus.
  • Seio de Abraão é um termo simbólico para o estado abençoado dos justos mortos antes de Cristo.
  • Cristo, ao morrer e ressuscitar, inaugura o acesso ao céu glorificado (Hebreus 9 e 10).
  • Por isso, ninguém “subiu” antes dEle — no sentido pleno e eterno.

Nota sobre “levou cativo o cativeiro”:Esta expressão, presente em Efésios 4:8 e inspirada em Salmo 68:18, aponta para o triunfo de Cristo sobre a morte e o inferno. Na teologia reformada, compreende-se que Cristo, ao ressuscitar e ascender, libertou os justos que aguardavam no seio de Abraão, conduzindo-os em glória ao céu agora plenamente acessível. A figura é de um rei triunfante que liberta cativos (neste caso, não pecadores rebeldes, mas santos aguardando a plena redenção).

6. Conclusão Geral

  • Enoque e Elias foram preservados por Deus, mas não entraram no céu glorificado antes de Cristo.
  • A Transfiguração mostra uma revelação profética, não um estado permanente de glória.
  • O Seio de Abraão era um local temporário de consolo.
  • Somente Cristo inaugurou o acesso pleno ao terceiro céu após sua morte e ressurreição.
  • A expressão “levou cativo o cativeiro” revela a obra vitoriosa de Cristo em conduzir os seus para a glória eterna.

Conclusão Pastoral: Este estudo não só esclarece um ponto doutrinário, mas também reforça a centralidade de Cristo como único mediador entre Deus e os homens. Somente nEle temos acesso ao Pai, tanto os santos antigos quanto nós hoje. Sua obra consumada garante não apenas o perdão, mas também a esperança de estarmos com Ele na glória celestial.

7. Percepções assim o “céu”

A palavra “céu” na Bíblia pode ter significados diferentes:

  • Céu atmosférico (onde estão as aves, nuvens).
  • Céu sideral (onde estão o sol, lua, estrelas).
  • Céu celestial ou terceiro céu (morada plena de Deus, onde Cristo está glorificado — ver 2 Coríntios 12:2).

Alguns estudiosos defendem que Elias foi levado para um lugar celestial, mas não ao céu pleno da glória de Deus, pois esse acesso só é possível após a obra redentora de Cristo.

8. Enoque e Elias foram preservados, mas não glorificados

Outra linha de interpretação reformada é que Enoque e Elias foram de fato tomados por Deus, mas não em corpo glorificado e nem em plenitude da presença eterna de Deus.

Jesus, ao dizer que ninguém subiu ao céu, pode estar se referindo à ascensão com autoridade e acesso pleno à glória do Pai, algo que só o Filho encarnado fez após sua ressurreição ( Atos 1:9–11 ).

9. Jesus fala do “subir” como prerrogativa divina

O contexto em João 3 é sobre autoridade e revelação divina. Jesus está dizendo: ninguém tem autoridade para falar das coisas do céu como eu, porque só eu desci de lá e subi de novo (paráfrase).

Ou seja, mesmo que alguém tenha sido levado por Deus, ninguém subiu ao céu por seus próprios méritos ou de forma consciente para revelar as coisas do alto, como Jesus faz.

10. Outros pontos a considerar

  • Em João 1:18, está escrito: “Ninguém jamais viu a Deus.” Isso também mostra que há um tipo de experiência celestial plena que só é possível através de Cristo.
  • Em Hebreus 11:39–40, diz que os heróis da fé, inclusive Enoque, “não obtiveram a promessa”, porque Deus “providenciou coisa superior para nós”, ou seja, eles aguardaram a redenção em Cristo.

Deixe um comentário

Eu sou o Fabio!

Sou o Teólogo Ninja🥷 — formado em TI, Letras e Teologia, e atualmente mestrando. clique aqui e saiba mais, e venha comigo participar desse blog com informações que vão melhorar a fé de muitos com a verdade.

Vamos nos conectar!