Texto base:
“E este é o número dos poderosos que Davi tinha: Jasobeão, hacmonita, chefe dos capitães, o qual, brandindo a sua lança contra trezentos, de uma vez os matou.”
(1 Crônicas 11:11)
Texto paralelo:
“Estes são os nomes dos valentes que Davi teve: Josebe-Bassebete, taquemônita, chefe dos três; ele brandiu a sua lança contra oitocentos, e os matou de uma só vez.”
(2 Samuel 23:8)
1. Introdução: a força de um herói
Este versículo narra um feito extraordinário de Jasobeão, um dos principais guerreiros de Davi. O texto afirma que ele “matou de uma vez” trezentos inimigos (ou oitocentos, conforme a versão de 2 Samuel). Tal relato, à primeira vista, suscita uma pergunta natural: como alguém poderia matar tantas pessoas de uma só vez?
Esta dúvida leva tanto crentes quanto céticos a questionar o texto: seria um fato literal? Uma hipérbole? Ou uma construção literária para exaltar a bravura do herói?
2. Análise textual e gramatical
2.1. Variação de números: 300 ou 800?
O texto de 1 Crônicas fala em 300 mortos, enquanto o relato paralelo de 2 Samuel menciona 800. Este tipo de divergência numérica é comum em manuscritos antigos e pode ter várias explicações:
- Erro de copista: confusão entre sinais numéricos hebraicos.
- Tradição diferente: Crônicas, escrito séculos após Samuel, pode ter usado fontes distintas.
- Tendência redacional: Crônicas costuma suavizar ou ajustar certos dados para sua audiência.
Embora alguns tentem harmonizar, a maioria dos estudiosos entende que são variações textuais legítimas.
2.2. O sentido de “de uma vez”
A expressão hebraica usada é:
בְּפַעַם אַחַת (be-pa‘am aḥat)
Literalmente: “numa única ocasião” ou “num só ataque”.
Importante notar que não significa que Jasobeão matou todos com um único golpe, mas que os derrotou em um único combate, sem precisar de campanhas prolongadas ou múltiplos confrontos.
Esse é um recurso comum na literatura bélica da antiguidade: expressar a vitória rápida e decisiva como prova de força e competência.
2.3. Verbos em forma intensiva
O texto hebraico de 1 Crônicas 11:11 possui verbos em formas intensivas:
| Verbo | Forma verbal | Função |
|---|---|---|
| עוֹרֵר (‘orer) — “brandiu” | Piel | Intensivo: ação vigorosa, “ergueu com força”. |
| וַיְמִיתָם (va-ye‘mitam) — “e os matou” | Hiphil | Causativo: “fez morrer”, ação deliberada e eficaz. |
➡️ Implicação: a narrativa reforça que Jasobeão realizou um ato intencional e poderoso, e não algo passivo ou simbólico.
Assim, a própria gramática intensifica a dramaticidade da cena.
3. A questão da hipérbole
3.1. O recurso literário
É legítimo considerar que o número de mortos aqui seja uma hipérbole — uma figura de linguagem que exagera para enfatizar a bravura e a força do personagem.
Esse recurso era frequente na literatura do Antigo Oriente Médio e aparece em diversos relatos bélicos, tanto bíblicos quanto extra-bíblicos.
Exemplos bíblicos:
- Sansão: matou mil homens com uma queixada de jumento (Juízes 15:15).
- Davi: “Saul matou milhares, mas Davi dezenas de milhares” (1 Samuel 18:7).
➡️ Tais expressões não visam fornecer estatísticas exatas, mas transmitir a grandiosidade do feito e a certeza da vitória.
3.2. A objeção ateísta: “é conveniente chamar de hipérbole”
Um ateu ou crítico pode argumentar que é “conveniente” rotular esse tipo de narrativa como hiperbólica, justamente para evitar o embaraço de aceitar literalmente uma cena aparentemente impossível.
Como responder?
- Literário, não evasivo: reconhecer hipérboles não é evasão, mas uma leitura consciente do gênero literário. Assim como não se lê poesia literalmente, não se exige que todos os relatos militares antigos sejam contagens exatas.
- Tradição exegética: mesmo intérpretes religiosos antigos, como alguns rabinos e teólogos patrísticos, reconheciam a presença de figuras de linguagem e de simbolismos no texto bíblico.
- A intenção do autor: não era fazer um relatório militar, mas uma narrativa teológica que exaltasse o poder de Deus agindo por meio de seus servos.
Portanto, a leitura hiperbólica não é um recurso “conveniente”, mas uma hermenêutica honesta e contextual.
4. Aspectos históricos e teológicos
4.1. O contexto histórico
- Os “valentes de Davi” (hebraico: הַגִּבֹּרִים, ha-giborim) eram guerreiros de elite.
- O relato busca enaltecer esses homens, não apenas como soldados, mas como instrumentos de Deus para estabelecer o reino davídico.
4.2. A dimensão teológica
- A vitória de Jasobeão não depende da força humana, mas da ação divina.
- O autor mostra que Deus pode capacitar um homem para realizar feitos aparentemente impossíveis.
- Serve de inspiração: Deus fortalece os que confiam Nele.
5. Aplicações práticas
- A narrativa inspira a confiança em Deus diante de batalhas desproporcionais.
- Mostra que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana.
- Ensina que feitos extraordinários podem ser realizados por homens comuns que se deixam usar por Deus.
6. Sugestão de tradução interpretativa
“… o qual, num único combate, matou trezentos homens ao brandir sua lança com força.”
Essa versão destaca:
- A natureza única do evento.
- A ação intensa de Jasobeão.
- Evita a ideia de um golpe instantâneo e impossível.
7. Conclusão: uma narrativa de fé e coragem
O relato de Jasobeão não é um simples registro de estatísticas militares, mas uma narrativa teológica que exalta:
- O poder de Deus sobre os inimigos.
- A bravura dos servos do Senhor.
- A importância da fé e da coragem diante das batalhas.
Mesmo que o número seja uma hipérbole, a mensagem permanece verdadeira: Deus capacita seus servos a realizar grandes feitos, para a Sua glória.
Resumo exegético:
| Elemento | Explicação |
|---|---|
| Número de mortos | Varia entre 300 e 800; provável variação textual ou hipérbole. |
| Expressão “de uma vez” | Significa “numa única ocasião”, não “num só golpe”. |
| Verbos | Intensivos: Piel (“brandiu com força”) e Hiphil (“matou”). |
| Estilo | Narrativa heroica com traços típicos da literatura bélica antiga. |
| Teologia | Deus exalta e capacita seus servos para feitos extraordinários. |





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