Jesus prometeu a sua vinda para “aquela” geração?

Introdução

A interpretação de Mateus 16:28 tem gerado debates ao longo da história da Igreja, especialmente quanto ao alcance e à natureza da “vinda” do Filho do Homem. O texto registra Jesus afirmando:

“Em verdade vos digo que alguns dos que aqui estão, de maneira nenhuma experimentarão a morte, até que vejam vir o Filho do Homem no seu Reino.”
(Mateus 16:28)

A questão central é: Jesus prometeu que aqueles ouvintes veriam sua volta gloriosa? Se sim, o que exatamente significa “ver o Filho do Homem vindo em seu Reino”?


1. Análise exegética do texto

1.1. “Alguns dos que aqui estão”

O termo grego τινες τῶν ὧδε ἑστηκότων delimita o grupo: “alguns dos que aqui estão de pé”. Isso implica uma referência direta e concreta a certos ouvintes presentes no momento da fala de Jesus, não a uma geração indefinida do futuro.

1.2. “De maneira nenhuma experimentarão a morte”

Expressão enfática: οὐ μὴ γεύσωνται θανάτου — uma fórmula hebraica intensificada que expressa certeza absoluta: “não provarão de modo algum a morte”.

1.3. “Até que vejam vir o Filho do Homem no seu Reino”

O verbo grego ἰδῶσιν (“vejam”) indica uma experiência perceptível. A expressão “o Filho do Homem vindo no seu Reino” remete ao simbolismo de Daniel 7:13-14, onde o “Filho do Homem” recebe domínio, glória e um reino eterno.

O “ver” sugere um evento impactante, não apenas espiritual, mas potencialmente visível, público e marcante.


2. Interpretações exegéticas e teológicas

2.1. Cumprimento na Transfiguração
  • Logo após esta declaração, Jesus se transfigura perante Pedro, Tiago e João (Mateus 17:1-8).
  • Eles viram Jesus glorificado, acompanhado por Moisés e Elias, numa prévia da glória messiânica.
  • Argumento a favor: sequência imediata do texto.
  • Limitação: evento privado, que não parece ser a manifestação completa do Reino.

2.2. Cumprimento na Ressurreição e Ascensão
  • Jesus, ao ressuscitar e ascender, demonstrou sua vitória e iniciou a manifestação do Reino (Atos 2:33-36).
  • Muitos dos discípulos ainda estavam vivos para presenciar esses acontecimentos.
  • Vantagem: exalta a centralidade da Páscoa cristã como evento inaugural do Reino.
  • Desafio: não é apresentado no Novo Testamento como a “vinda” escatológica do Filho do Homem.

2.3. Cumprimento na destruição de Jerusalém (70 d.C.)
  • Esta linha de interpretação, associada ao preterismo, considera a destruição de Jerusalém como uma vinda em juízo de Cristo.
  • Jesus usou linguagem apocalíptica semelhante em Mateus 24:27-34, referindo-se ao juízo sobre Israel, e prometeu que “esta geração” não passaria até que tudo se cumprisse.
  • Ponto forte: conexão direta com eventos históricos que os discípulos viram.
  • Ponto fraco: requer entender “vinda” não como parousia final, mas como intervenção histórica específica.

2.4. Cumprimento na Segunda Vinda
  • Para intérpretes futuristas, o texto se refere à parousia — a vinda final, gloriosa e visível de Cristo.
  • Desafio: seria necessário que alguns presentes não morressem até hoje, o que é inviável.
  • Algumas tentativas de harmonização:
    • Considerar a linguagem como hiperbólica ou simbólica.
    • Aplicar a promessa a João, o apóstolo, visto que em João 21:22 Jesus disse: “Se eu quiser que ele permaneça até que eu venha…”.

3. Considerações exegéticas adicionais

  • Ao contrário de Mateus 24:34, aqui não se usa o termo “geração” (γενεὰ), mas uma referência a “alguns” dos ouvintes presentes.
  • O “vir no Reino” pode ser compreendido como uma manifestação progressiva da autoridade messiânica de Jesus, com diversos marcos históricos:
    • A Transfiguração: antecipação.
    • A Ressurreição: inauguração.
    • Pentecostes: expansão.
    • Juízo sobre Jerusalém: confirmação.
    • Segunda Vinda: consumação.

4. Síntese das interpretações

InterpretaçãoPonto ForteLimitação
TransfiguraçãoProximidade imediata no textoEvento privado e limitado
Ressurreição e AscensãoRealidade histórica centralNão é apresentada como a vinda gloriosa
Destruição de JerusalémCumprida historicamente naquela geraçãoRequer compreensão simbólica da “vinda”
Segunda VindaHarmonia com o uso apocalíptico do título “Filho do Homem”Problema com a referência a alguns presentes ainda vivos

5. Conclusão

A promessa de Jesus em Mateus 16:28 deve ser compreendida à luz da tensão escatológica entre o “já” e o “ainda não” do Reino de Deus.

É mais coerente exegética e teologicamente afirmar que Jesus se referia a uma ou mais manifestações históricas do Reino, visíveis a alguns dos discípulos presentes, sem que isso implique necessariamente a parousia final. Assim, eventos como a Transfiguração, a Ressurreição e até mesmo a destruição de Jerusalém podem ser entendidos como “vindas” do Filho do Homem, inaugurando e confirmando sua autoridade messiânica e real.

A Segunda Vinda continua sendo uma esperança futura, sem contradição com as manifestações históricas do Reino já experimentadas.


6. Aplicação pastoral

Este texto nos lembra que o Reino de Deus é uma realidade progressiva, que se manifesta na história, e cuja consumação final ainda esperamos. Para os discípulos de Jesus — ontem e hoje — há o chamado à vigilância, à confiança e ao testemunho de que Cristo já reina, mas também voltará.

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