Perpétua virgindade de Maria, será?

Demorei um pouco a escrever sobre isso, vamos lá.
Isso é uma afirmação da igreja católica para proteger a perpétua virgindade de Maria. Vamos ver quais igrejas defendem isso e porque.

1. Igreja Católica Apostólica Romana

  • Defende oficialmente como dogma de fé.
  • Foi proclamado no Concílio de Latrão (649 d.C.) e reafirmado em vários documentos.
  • Ensina que Maria foi:
    • Virgem antes do parto (concebeu por obra do Espírito Santo),
    • Virgem no parto (o nascimento não violou sua virgindade),
    • Virgem após o parto (nunca teve relações com José).
  • Negar isso é considerado erro doutrinário grave dentro do catolicismo.

2. Igrejas Ortodoxas (Oriental e Grega)

  • Concordam totalmente com a doutrina.
  • Chamam Maria de “Aeiparthenos” (Αειπάρθενος) — “sempre virgem”.
  • Também interpretam os “irmãos de Jesus” como primos ou filhos de José de um casamento anterior.
  • A veneração mariana é fortemente litúrgica e teológica.

3. Igrejas Anglicanas / Episcopais

  • As antigas confissões (séculos XVI–XVII) mantinham a crença.
  • Muitos anglicanos ainda a aceitam como tradição, embora não como dogma obrigatório.
  • O Book of Common Prayer e alguns teólogos anglo-católicos mantêm essa visão.

4. Reformadores Protestantes originais

Surpreendentemente, Lutero, Calvino e Zwinglio afirmavam a virgindade perpétua de Maria:

  • Martinho Lutero (1522): “Maria permaneceu virgem antes, durante e depois do parto.”
  • João Calvino: “Não é lícito deduzir que ela teve outros filhos.”
  • Ulrich Zwinglio: “A pureza de Maria é eterna.”
    Mas… com o tempo, o protestantismo posterior abandonou essa posição por falta de base textual explícita.

5. Igrejas Protestantes modernas (evangélicas)

  • Não defendem a virgindade perpétua.
  • Afirmam apenas a conceição virginal de Jesus (como milagre da encarnação).
  • Entendem que depois do nascimento, Maria e José viveram um casamento normal e tiveram outros filhos (Mateus 13:55–56).

Concluímos que:

TradiçãoPosição
Copta e SiríacaDefendem fortemente; veem Maria como “nova Eva” e “sempre virgem”.
Luteranos históricosMuitos ainda mantêm a crença (não como dogma).
Batistas, Pentecostais, Presbiterianos, MetodistasRejeitam a ideia; aceitam apenas a virgindade antes do parto.
Adventistas e Testemunhas de JeováRejeitam completamente a virgindade perpétua.

Conclusão:

GrupoCrença na Virgindade Perpétua
CatólicosSim, por dogma
OrtodoxosSim, por dogma
Anglicanos tradicionaisAceitam, mas não exigem
Reformadores clássicosAceitavam pessoalmente
Protestantes modernos / evangélicosRejeitam
Adventistas / TJ / etc.Rejeitam

O que é um Dogma (explicação rápida)

Definição teológica

Dogma é uma verdade de fé revelada por Deus e proclamada oficialmente pela Igreja como essencial à salvação e à ortodoxia da fé.

Em outras palavras:

  • É uma verdade definitiva, que o fiel deve crer.
  • Não é apenas uma “opinião teológica”, mas algo que a Igreja reconhece como parte da revelação divina (Bíblia + Tradição Apostólica).

1. Características de um dogma

CaracterísticaExplicação
Origem divinaBaseia-se na revelação (não é invenção humana).
Definição eclesialÉ proclamado oficialmente por um concílio ou pelo Papa (ex: Imaculada Conceição em 1854).
ImutabilidadeNão pode ser alterado, apenas aprofundado em compreensão.
Obrigatoriedade de féTodo católico deve aceitá-lo. Negar um dogma é considerado heresia.

2. Exemplos de dogmas marianos

DogmaAno / Papa / ConcílioEnsinamento
Maternidade divina (Theotokos)Concílio de Éfeso, 431Maria é Mãe de Deus, pois gerou Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Perpétua virgindadeConcílio de Latrão, 649Maria permaneceu virgem antes, durante e depois do parto.
Imaculada ConceiçãoPapa Pio IX, 1854Maria foi concebida sem o pecado original.
Assunção de MariaPapa Pio XII, 1950Maria foi levada ao céu em corpo e alma.

3. Comparando “dogma” com “doutrina”

TermoSignificadoGrau de obrigatoriedade
DogmaVerdade de fé revelada e definida oficialmenteObrigatória para todos os fiéis
DoutrinaEnsino teológico importante, mas ainda discutívelRequer respeito, mas pode evoluir
Opinião teológicaInterpretação pessoal ou escola de pensamentoLivre aceitação

1. Evolução histórica da crença na Perpétua Virgindade de Maria

SéculoPersonagens / ConcíliosPosição e importância
IIProtoevangelho de Tiago (c. 150 d.C.)Primeiro texto cristão a chamar Maria de “sempre virgem”. Influenciou a tradição cristã primitiva.
IIIOrígenes (†254)Defende que Maria permaneceu virgem antes, durante e depois do parto.
IVAtanásio, Basílio, Gregório de Nissa, AmbrósioTodos afirmam fortemente a virgindade perpétua.
IVJerônimo (†420)Escreve Contra Helvídio, defendendo que os “irmãos de Jesus” eram primos, não filhos de Maria.
IV–VAgostinho de HiponaEnsina que Maria “concebeu sendo virgem, deu à luz sendo virgem e permaneceu virgem”.
VConcílio de Éfeso (431)Declara Maria como Theotokos (“Mãe de Deus”) — reforça sua santidade e virgindade.
VIIConcílio de Latrão (649)Define oficialmente o dogma: “Maria permaneceu virgem antes, durante e após o parto.”
XIIITomás de AquinoAfirma que a virgindade perpétua é coerente com a dignidade de Maria e a encarnação.
XVIReformadores (Lutero, Calvino, Zwinglio)Acreditavam na virgindade perpétua, embora sem elevá-la a dogma.
HojeCatólicos e OrtodoxosMantêm como artigo de fé e parte da liturgia (ex.: “Maria sempre Virgem”).

2. Origem da controvérsia — os primeiros questionamentos

Nos primeiros séculos, praticamente toda a Igreja antiga aceitava a virgindade perpétua de Maria.
O primeiro registro de contestação vem de Helvídio, em torno de 380 d.C.:

PeríodoPersonagemO que dizia
c. 380 d.C.Helvídio, escritor cristão em RomaArgumentou que Maria teve outros filhos com José após o nascimento de Jesus. Baseou-se em Mateus 1:25 e 13:55–56.
c. 383 d.C.Joviniano, monge romanoAfirmou que a virgindade não tem mérito espiritual superior e que Maria não precisou permanecer virgem.
c. 384 d.C.São Jerônimo responde a Helvídio com o tratado Contra HelvidiumDefende com força a virgindade perpétua e define os “irmãos” como primos ou parentes.
Século V–VIIControvérsia praticamente desapareceA posição contrária passa a ser vista como heresia, especialmente no Ocidente.

Portanto, a oposição inicial veio ainda dentro da Igreja, não de fora — e foi minoritária.

2. Quando o dogma foi oficialmente formulado

O dogma católico sobre a perpétua virgindade foi definido oficialmente pela primeira vez no:

Concílio de Latrão, em 649 d.C., convocado pelo Papa Martinho I.

Trecho do decreto conciliar:
“Se alguém não confessa, segundo os santos Padres, que a santa e sempre Virgem Maria é verdadeiramente e propriamente Mãe de Deus, por haver concebido do Espírito Santo sem semente e sem corrupção, e que permaneceu incorrupta e inviolada mesmo depois do parto, seja anátema.”

Esse concílio consolidou a crença antiga como dogma oficial (definitivo).

Mas atenção: não foi no século XX.
O que aconteceu no século XX foi outro dogma mariano, o da Assunção de Maria (1950), proclamado pelo Papa Pio XII.

3. Evolução dos contrários (séculos XVI–XXI)

Os protestantes reformadores do século XVI inicialmente não negaram a virgindade perpétua, mas com o tempo a leitura literal das Escrituras fez surgir a rejeição.

SéculoMovimento / PersonagemPosição
XVIMartinho Lutero, Calvino, ZwinglioAinda defendiam a virgindade perpétua por respeito à tradição.
XVII–XVIIIPuritanos e Reformados posterioresComeçam a rejeitar, por não verem base bíblica explícita.
XIXProtestantismo liberalRejeita todos os dogmas marianos, inclusive a conceição virginal literal.
XX–XXIEvangélicos, batistas, pentecostais, adventistasAceitam apenas a conceição virginal de Jesus (Mt 1:18), e negam a virgindade perpétua.

4. Síntese geral

FaseA favorContraTipo de argumento
Séculos I–IVPadres Apostólicos, Apócrifos, Orígenes, AtanásioNenhum registro sólidoTradição oral e simbólica (virgindade como pureza)
Século IVJerônimo, Agostinho, AmbrosioHelvídio, JovinianoExegese literal dos “irmãos de Jesus”
Séculos V–XVIgreja unânimeNenhuma corrente significativaTradição unificada
Século XVILutero, Calvino (a favor)Alguns humanistas bíblicosRetorno ao texto bíblico
Séculos XVII–XXICatólicos e OrtodoxosProtestantes modernosInterpretação literalista da Escritur

5. Resumo do que houve no século XX

  • Dogma do século XX (1950): Assunção de Maria – não a virgindade.
  • A virgindade perpétua já era dogma desde o século VII (Lat. 649).
  • No século XX, o Vaticano II (1962–1965) reafirmou esse dogma em Lumen Gentium §57: “Este nascimento de Cristo não diminuiu, antes consagrou a integridade virginal de sua Mãe.”

Ou seja, o século XX não criou o dogma, apenas o reafirmou oficialmente dentro da teologia moderna.


Vamos avaliar um pouco conceitos Bíblicos, entrando no núcleo exegético do debate — onde o texto realmente é testado:

Mateus 1:25, Mateus 12:46–50 / Marcos 3:31–35.

Esses são os principais trechos usados por quem questiona a perpétua virgindade de Maria, mas também os mesmos que, quando analisados gramaticalmente e no contexto semítico, podem apontar para outra leitura.

1. Mateus 1:25 — “Até que deu à luz o seu filho primogênito”

“Mas não teve relações com ela até que deu à luz um filho; e ele lhe pôs o nome de Jesus.”
(Mt 1:25, NVI)

O termo grego central

ἕως οὗ (heōs hou) → “até que”.

No grego bíblico, essa expressão não implica necessariamente uma mudança posterior.
Depende do contexto.

Exemplos bíblicos:

  • 2 Samuel 6:23 → “Mical, filha de Saul, não teve filhos até o dia da sua morte.”
    → Obviamente ela não teve filhos depois da morte.
  • Mateus 28:20 → “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos.”
    → Cristo não deixará de estar conosco depois disso.
  • Gênesis 8:7 (LXX) → “O corvo não voltou até que secaram as águas.”
    → Não significa que ele voltou depois.

Conclusão exegética:
“Não a conheceu até que deu à luz” quer enfatizar a pureza da concepção virginal, não uma mudança posterior.
O foco de Mateus é provar o cumprimento da profecia de Isaías 7:14, não discutir a vida conjugal posterior de José e Maria.

“Primogênito” (πρωτότοκος – prōtotokos)

Esse termo não significa “primeiro de vários”, mas sim:

“O que abre o ventre” (Êx 13:2; Lc 2:23).

Na cultura judaica, todo primeiro filho — mesmo que fosse o único — era chamado primogênito, por causa da lei de consagração.
Logo, o uso de primogênito em Mateus 1:25 não implica irmãos posteriores.

2. Mateus 12:46–50 — “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora”

“Falava ainda Jesus à multidão, quando sua mãe e seus irmãos chegaram do lado de fora, querendo falar com ele.”
(Mt 12:46, NVI)

Contexto

A narrativa aparece também em Marcos 3:31–35 e Lucas 8:19–21.
Jesus está ensinando, e sua mãe e “irmãos” querem vê-lo.

A questão exegética: quem são esses “irmãos”?

O grego traz novamente οἱ ἀδελφοί αὐτοῦ — hoi adelphoi autou, “seus irmãos”.

Mas o contexto bíblico e cultural abre várias possibilidades:

InterpretaçãoExplicaçãoBase
Filhos de Maria e JoséLeitura literal modernaProtestantismo pós-Reforma
Filhos de José de um casamento anteriorJosé viúvo, com filhos mais velhosTradição ortodoxa oriental
Primos ou parentes próximos“Adelfós” usado amplamenteCostume semítico, sem termo específico para “primo”

Comparação com Gênesis 13:8

Abraão diz a Ló: “Nós somos irmãos.”
→ mas eram tio e sobrinho.

Ponto teológico e literário

O texto não busca discutir a vida familiar de Maria, mas fazer uma distinção espiritual:

“Quem faz a vontade do meu Pai, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” (Mt 12:50)

Assim, Jesus:

  • não nega sua mãe biológica,
  • mas redefine o conceito de parentesco:
    agora o verdadeiro vínculo é espiritual, não sanguíneo.

Aplicação hermenêutica:
O termo “irmãos” é usado por Jesus de modo teológico e inclusivo, ampliando a família de Deus.
Não há interesse em discutir o estado virginal de Maria — o foco é o discipulado.

3. Marcos 3:31–35 — versão paralela

“Chegaram então sua mãe e seus irmãos; ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo.”
(Mc 3:31, NVI)

Contexto literário

Marcos usa o episódio para mostrar o contraste entre o “dentro” e o “fora”:

  • Os familiares estão do lado de fora (não compreendem plenamente),
  • Os discípulos estão dentro (ouvem e fazem a vontade de Deus).

Tema central: discipulado versus parentesco físico.

Observações linguísticas e culturais
  • Em Marcos 6:3, os “irmãos” são nomeados: Tiago, José, Judas e Simão.
    → Todos nomes comuns entre judeus; nenhum texto os identifica como filhos de Maria diretamente.
    → E note: em Marcos 15:40, aparece “Maria, mãe de Tiago e de José” — mas outra Maria, não “Maria, mãe de Jesus”.

Portanto, há base textual para entender que esses “irmãos” eram parentes próximos (primos), filhos de outra Maria, ou de um casamento anterior de José — e não filhos de Maria, mãe de Jesus.

4. Conclusão exegético-hermenêutica

QuestãoExegese bíblicaInterpretação teológica
Mateus 1:25 — “até que”Não implica relação posteriorEnfatiza a virgindade na concepção
Mateus 12 / Marcos 3 — “irmãos”Adelphoi = parentes próximos ou irmãos de féJesus redefine família espiritual
“Primogênito”Título legal, não numéricoNão implica outros filhos
Função do textoFocar em Jesus e sua missãoNão discutir o estado conjugal de Maria

Assim, nenhum desses textos exige que Maria tenha perdido a virgindade.
Mas também nenhum comprova dogmaticamente que ela permaneceu virgem.
A decisão hermenêutica vai depender da teologia subjacente:

  • A tradição católica e ortodoxa lê esses textos à luz da tipologia e da tradição apostólica;
  • A tradição protestante moderna lê sob o princípio da Sola Scriptura, priorizando a literalidade.

Resumo final

Sei que nenhum argumento quebra uma fé com facilidade. Por isso deixo minha opinião simples e sincera. Em 649 foi colocado um dogma para forçar a todos a aceitar. Por mais que tenha toda tradição por trás e “forçação” do povo para santificar sua virgindade, não vejo a necessidade disso.

Maria foi uma mulher incrível, que merece todo respeito por quem foi e o que fez, todavia não já o porque defender tanto isso, pois ela era casada, ela tinha uma vida normal, como qualquer outro ser humano.

Até a próxima.

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