Introdução
O texto de Gênesis 3:17 marca um momento decisivo na narrativa bíblica da Criação: a entrada do pecado no mundo e suas consequências não apenas para os seres humanos, mas para toda a criação. A frase-chave — “Maldita é a terra por tua causa” — levanta questões profundas:
- A Terra foi corrompida ou apenas afetada?
- O pecado impregnou a biologia, os animais, a própria natureza?
- Como judeus e cristãos, ao longo dos séculos, interpretaram essa passagem?
Este artigo oferece uma análise exegética completa, traçando a interpretação judaica e cristã, com referências a fontes clássicas como a Torah, o Talmud, a Patrística e a teologia reformada, além de apresentar reflexões contemporâneas.
1. Exegese de Gênesis 3:17
Texto base:
“E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore que te ordenei, dizendo: Não comerás dela; maldita é a terra por tua causa; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.” (Gn 3:17)
1.1. Análise gramatical e semântica
- ארורה האדמה בעבורך (Arurá ha’adamá ba’avurechá) → “Maldita é a terra por tua causa“:
- A maldição não é autônoma, mas mediada pela ação humana.
- בעצב תאכלנה (Be’etzév tochelená) → “Com dor (ou sofrimento) comerás dela”:
- O sofrimento entra no processo de sobrevivência e subsistência.
O termo “maldição” aqui não indica uma destruição essencial ou uma malignidade intrínseca da terra, mas uma alteração na relação homem-natureza.
1.2. O contexto narrativo
- Antes: Deus cria tudo como “muito bom” (Gn 1:31).
- A desobediência humana quebra a harmonia.
- A maldição não atinge diretamente o homem (ele é punido com o sofrimento), mas a terra, que passa a resistir ao domínio humano.
2. A tradição judaica: interpretação clássica
2.1. A Torah e o Tanakh
No Judaísmo, a leitura é clara:
- A Terra permanece essencialmente boa (Salmos 24:1 — “Do Senhor é a terra”).
- A maldição significa que o homem perdeu a facilidade com que colhia os frutos antes do pecado.
2.2. O Talmud
O Talmud (Sanhedrin 38b) sugere que, antes do pecado, o sustento humano era garantido sem esforço. Após o pecado:
- A terra passa a produzir “espinhos e abrolhos” (Gn 3:18).
- A relação homem-natureza se torna conflituosa e árdua.
Não há, no Talmud, a noção de que o pecado causou uma corrupção ontológica da criação.
2.3. A Torah Shebe’al Pe (Torá Oral) e os Midrashim
Os Midrashim expandem a ideia:
- Antes, as árvores davam frutos já prontos para comer.
- Depois, o homem teve que cultivar, plantar e colher — o trabalho tornou-se um fardo.
O Midrash Rabbah (Bereshit 20:9) afirma:
“Até a terra rebelou-se por causa da rebelião de Adão”.
Mas isso é visto como uma ordem funcional, não uma corrupção essencial.
3. A visão cristã: corrupção cósmica?
3.1. Patrística e teologia clássica
Agostinho de Hipona
- Desenvolve a ideia do “pecado original” como transmissível biologicamente.
- O pecado de Adão afeta toda a humanidade e a criação.
- A natureza sofre uma “ferida ontológica”.
Irineu de Lião
- Enfatiza a criação como boa, mas ferida.
- A redenção é entendida como uma “recapitulação” (anakephalaiosis), na qual Cristo restaura todas as coisas.
3.2. Reforma Protestante
João Calvino
- Interpreta Gênesis 3:17 como um juízo divino sobre a criação.
- A natureza agora é marcada por desordem, sofrimento e morte.
- O pecado causou uma “queda cósmica”: “A maldição se estende a todas as criaturas”.
Martinho Lutero
- Destaca o trabalho humano como punitivo, mas também redentivo, na medida em que coopera com Deus.
3.3. O Novo Testamento e a teologia paulina
- Romanos 8:20-22: “A criação ficou sujeita à vaidade… toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.”
Aqui, Paulo introduz a ideia de uma sofrimento cósmico em função do pecado humano, mas também da esperança de redenção.
- A criação, embora ferida, aguarda a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rm 8:21).
4. Teologias contemporâneas e a questão ecológica
Autores contemporâneos, como N. T. Wright e Jürgen Moltmann, desenvolvem a visão de que:
- A criação sofre, mas não perdeu sua bondade intrínseca.
- O cristianismo deve assumir uma responsabilidade ecológica, como parceiros na redenção do mundo.
Moltmann fala em uma “escatologia da criação”, onde Deus não destruirá, mas renovará a criação (Apocalipse 21).
5. O contraponto judaico: Tikkun Olam
Na mística judaica (Kabbalah), especialmente com o conceito de Tikkun Olam (“reparar o mundo”), há uma visão de que:
- O mundo está quebrado, mas não por uma corrupção essencial.
- Os seres humanos, através das mitzvot (mandamentos), participam na reparação do mundo.
O pecado de Adão é visto como uma “falha” que demanda correção, mas não como uma herança de corrupção ontológica.
6. Reflexão teológica: a natureza foi “ferida” ou “corrompida”?
| Perspectiva | Visão |
|---|---|
| Judaísmo clássico | A criação permanece boa; a maldição é funcional e relacional. |
| Cristianismo patrístico | A criação foi ferida; o homem e a natureza padecem juntos. |
| Teologia reformada | A criação foi corrompida; o pecado causou queda cósmica. |
| Teologias contemporâneas | A criação sofre, mas aguarda redenção e renovação. |
7. Conclusão
O texto de Gênesis 3:17 não deve ser lido como uma declaração de corrupção essencial da criação, mas como um marco na alteração da relação entre o homem e o mundo natural:
- A terra passa a resistir.
- O trabalho se torna penoso.
- A harmonia original se rompe.
As tradições judaica e cristã oferecem leituras diversas, mas complementares:
- Enquanto o judaísmo enfatiza a responsabilidade ética (Tikkun Olam),
- O cristianismo aponta para a redenção cósmica em Cristo.
Em ambos os casos, há um chamado para superar a alienação e cooperar na restauração da ordem criada.
Resumo final
A maldição em Gênesis 3:17 afetou a natureza, mas não a tornou essencialmente má.
O judaísmo entende como uma alteração funcional; o cristianismo, como uma ferida cósmica.
A criação sofre e aguarda redenção.
O ser humano é responsável por cooperar com Deus na reparação e restauração da criação.
Referências principais
- N. T. Wright, “Surprised by Hope”
- Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS)
- Talmud Bavli, Sanhedrin 38b
- Midrash Bereshit Rabbah
- Agostinho, “De Civitate Dei”
- João Calvino, “Comentário sobre Gênesis”
- Jürgen Moltmann, “Deus na Criação”





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