Entre as passagens mais estudadas e debatidas da literatura profética bíblica, o texto de Daniel 9:24-27 destaca-se como uma pedra angular da escatologia judaico-cristã. Conhecida como a profecia das “setenta semanas”, ela atravessa séculos de interpretação e continua a instigar estudiosos, teólogos e fiéis ao redor do mundo. O cerne do debate gira em torno da questão: essa profecia se cumpriu no passado ou ainda aguarda um cumprimento futuro?
Nesta apresentação, exploraremos detalhadamente a interpretação que afirma que as 70 semanas de Daniel já se cumpriram. Apóia-se essa perspectiva em uma leitura histórica e cristo-céntrica do texto, identificando Jesus como o Messias prometido, cuja vinda, morte e consequente rejeição por Israel marcam o clímax da profecia.
1. INTERPRETAÇÃO DO TEXTO – CUMPRIMENTO PASSADO DAS 70 SEMANAS
Daniel 9:24-27 fala de “setenta semanas” decretadas para o povo de Israel e Jerusalém, com foco em seis objetivos (v.24) e eventos messiânicos. As semanas são geralmente entendidas como semanas de anos (70×7 = 490 anos).
A interpretação preterista/historicista afirma que:
- As 70 semanas começaram com o decreto para reconstruir Jerusalém (geralmente identificado com o decreto de Artaxerxes em 457 a.C.);
- O Messias seria ungido após 69 semanas (483 anos), chegando por volta de 27 d.C., início do ministério público de Jesus;
- Na última semana (a 70ª), Ele:
- Foi cortado (crucificado) no meio da semana (por volta de 30 ou 31 d.C.);
- Confirmou a aliança com muitos, como mencionado no v.27 (interpretação de que Jesus confirmou a nova aliança);
- Após a rejeição do Messias, Jerusalém foi destruída pelos romanos em 70 d.C., encerrando o período.
2. EVIDÊNCIAS / ARGUMENTOS A FAVOR DO CUMPRIMENTO TOTAL
Cronologia compatível:
- 457 a.C. (decreto de Artaxerxes) + 483 anos = 27 d.C.
- Jesus inicia o ministério em 27 d.C. e é crucificado por volta de 30/31 d.C., no meio da última semana.
- A aliança é “confirmada” com muitos nos 3 anos e meio seguintes pela pregação dos apóstolos.
- O juízo final a Israel vem com a destruição do Templo em 70 d.C..
Unidade ininterrupta das 70 semanas:
- Não há intervalo (gap) entre a 69ª e 70ª semana, como ensina o dispensacionalismo.
- A profecia flui continuamente até o seu fim, culminando com o ministério de Jesus e a queda de Jerusalém.
O foco da profecia:
- Está no povo judeu e Jerusalém — não em eventos escatológicos futuros ou uma tribulação de 7 anos.
Jesus como o “príncipe” e “ungido”:
- O termo hebraico Mashiach Nagid (“ungido príncipe”) é interpretado por essa linha como uma clara referência ao Messias Jesus, não a um anticristo.
3. TEÓLOGOS, PAIS DA IGREJA E ESTUDIOSOS QUE APOIAM ESSA VISÃO
Pais da Igreja
- Júlio Africano (séc. III) — propôs que a profecia se cumpriu em Cristo.
- Eusébio de Cesareia (séc. IV) — entendeu o Messias cortado como Jesus e os eventos subsequentes como o juízo sobre Jerusalém.
- Jerônimo — interpretou a destruição do templo em 70 d.C. como cumprimento da profecia.
Reformadores
- Martinho Lutero
- João Calvino
- Matthew Henry — Comentador bíblico puritano.
Esses entendiam a profecia como cumprida em Jesus e na história da Igreja primitiva.
Teólogos e estudiosos mais recentes
- Philip Mauro – escreveu The Seventy Weeks and the Great Tribulation (1921), sustentando o cumprimento no primeiro século.
- Albert Barnes – famoso comentador bíblico.
- Adam Clarke – também comenta sobre o cumprimento na época de Cristo e da destruição do Templo.
- John Gill – batista reformado, entende o cumprimento em Jesus.
- N. T. Wright – embora não foque especificamente nessa profecia, reforça que muito do discurso apocalíptico se cumpriu no primeiro século.
4. CONTRASTE COM OUTRAS INTERPRETAÇÕES
- O preterismo total/parcial vê o cumprimento já ocorrido (especialmente no primeiro século).
- O dispensacionalismo (popular em igrejas evangélicas modernas) vê a 70ª semana como futura, reservada para a tribulação e anticristo – visão surgida com John Nelson Darby no século XIX.
5. RESUMO DA INTERPRETAÇÃO PRETERISTA DAS 70 SEMANAS
| Semana(s) | Evento |
|---|---|
| 1ª a 69ª | 457 a.C. a 27 d.C. — Reconstrução e chegada do Messias |
| Início da 70ª | 27 d.C. — Início do ministério de Jesus |
| Meio da 70ª | 30/31 d.C. — Morte de Jesus (Messias cortado) |
| Fim da 70ª | 34 d.C. (Estêvão apedrejado, Evangelho aos gentios?) |
| Após a 70ª | 70 d.C. — Destruição de Jerusalém |
Conclusão: A Profecia Cumprida em Cristo
A interpretação de que as 70 semanas de Daniel já se cumpriram oferece uma leitura coesa e centrada em Cristo da narrativa bíblica. Ela reafirma a soberania divina na história e a fidelidade das Escrituras. Ao compreender essa profecia como já realizada, especialmente através da vida, morte e ressurreição de Jesus, reconhecemos o cumprimento das promessas messiânicas e a transição da antiga aliança para a nova. Assim, a profecia das setenta semanas se revela não apenas como um código escatológico, mas como uma poderosa declaração do Evangelho na história humana.





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