Esse assunto é interessante, pois no post anterior eu falei sobre a capacidade da “serpente” do Éden falar (nesse link) e não somente falar, mas também ter raciocínio, estratégia e articulação teológica.
Então nada melhor de falar sobre outro animal que a Bíblia cita que “falou”. Vamos fazer uma análise e ver a melhor possibilidade de interpretarmos esse assunto.
Descrição do caso
Onde está na Bíblia?
Esse relato está em Números 22, no Antigo Testamento.
O que acontece?
É a história de Balaão, um profeta que foi chamado por Balaque, rei de Moabe, para amaldiçoar o povo de Israel. No caminho, Deus envia um anjo para impedir Balaão. Ele não vê o anjo, mas sua jumenta (ou mula) sim — e tenta evitar o caminho três vezes. Balaão a espanca, e então Deus faz a jumenta falar com ele.
O que a mula fala?
“Que te fiz eu, que me espancaste estas três vezes?” (Números 22:28)
Depois disso, Deus abre os olhos de Balaão e ele finalmente vê o anjo.
Exegese
וַיִּפְתַּח יְהוָה אֶת־פִּי הָאָתוֹן וַתֹּאמֶר לְבִלְעָם מַה־עָשִׂיתִי לְךָ כִּי הִכִּיתַנִי זֶה שָׁלֹשׁ רְגָלִים׃
Transliteração: Vayyiftach YHWH et-pi ha’aton, vato’mer le-Bil‘am: Mah asiti lekha ki hikkitani zeh shalosh regalim?
Tradução: Então o Senhor abriu a boca da jumenta, e ela disse a Balaão: “Que te fiz eu, para que me espancasses estas três vezes?”
Algumas perguntas para extrairmos do texto o máximo de informações:
1. Balaão então é profeta de Deus, certo?
Sim e não.
Balaão é chamado de “profeta” ou “vidente”, mas não aparece como parte do povo de Deus. Ele era um adivinho do Oriente (provavelmente da região da Mesopotâmia).
Deus fala com ele porque tem um propósito específico, mas Balaão não é descrito como um profeta fiel como Moisés ou Samuel.
Em Números 24:2, o Espírito de Deus vem sobre ele, mostrando que Deus o usa temporariamente.
2. Existe algum teólogo que refuta a ideia do animal falar?
Sim.
Alguns teólogos e estudiosos mais críticos ou liberais (como da teologia acadêmica moderna) consideram isso uma narrativa simbólica ou didática, não literal.
- James Kugel (erudito judeu) e outros sugerem que a história ensina uma lição moral mais do que um evento histórico.
- Teólogos mais conservadores (como John MacArthur, Norman Geisler) afirmam a literalidade: Deus fez o milagre de forma pontual e específica.
3. Pelo original, há a possibilidade de ser Deus ou o anjo falando em vez do animal?
O hebraico é bem direto:
“YHWH abriu a boca da jumenta” → וַיִּפְתַּח יְהוָה אֶת־פִּי הָאָתוֹן
Ou seja, é claro no texto que Deus capacitou o animal a falar (como fez com a boca de Moisés em Êxodo 4). Não é o anjo falando “através” da jumenta.
A estrutura gramatical hebraica deixa claro que foi a jumenta quem falou, mas por permissão direta e intervenção divina.
4. Existe outro lugar na Bíblia (além da serpente do Éden) que animal fala?
Não. Os únicos casos de fala animal na Bíblia são:
- A serpente no Éden (Gênesis 3 – interpretada por muitos como Satanás usando a serpente)
- A jumenta de Balaão (Números 22)
Fora isso, não há outros registros bíblicos de animais falando.
5. A jumenta fala apenas essa frase?
Não, há mais um diálogo curto, veja:
Números 22:28–30:
- Jumenta: “Que te fiz para que me espancasses três vezes?”
- Balaão responde (como se fosse normal): “Porque zombaste de mim!”
- Jumenta: “Acaso não sou tua jumenta que sempre montaste? Alguma vez fiz isso antes?”
- Balaão: “Não.”
Então, em seguida, Deus abre os olhos de Balaão e ele vê o anjo.
Ou seja, há um mini-diálogo de 2–3 frases, mas ainda é algo extraordinário e único na Bíblia.
Ainda temos mais a analisar, vamos ser francos e diretos… “abriu a boca da jumenta”, ou seja, Deus poderia ter falado através, certo? Seja sincero, como o animal (eu sei que sendo Deus, tudo pode) pode ter pregas vocais apenas para aquele momento? Abriu a boca poderia ser, encheu a boca, ou se apossou do animal para falar através dele?
A serpente é um título, logo era uma pessoa (no sentido de personalidade), um anjo, alguém que teria possibilidade de eloquência e recebeu esse título de serpente, até porque mostra características muito peculiares de negociação, sagacidade, etc. mas no caso de Balaão é algo muito livre, de forma quase inútil para isso… logo fazer um animal falar por poucas frases, não seria melhor pensar que Deus falou através do animal?
Vamos por partes, com honestidade, fidelidade ao texto hebraico e aos contextos judaicos.
1. Talmude e Midrash – O que dizem sobre a jumenta?
Talmude – Pirkei Avot 5:6
“Dez coisas foram criadas ao entardecer do sexto dia da criação… entre elas: a boca da jumenta.”
Ou seja, os sábios rabínicos acreditavam que a capacidade da jumenta falar já estava prevista por Deus na criação, como algo miraculoso, não natural.
Interpretação: Não é que a jumenta tenha ganhado uma mente, mas que Deus criou esse evento de forma pontual e única, e o “abrir a boca” é um símbolo da soberania de Deus sobre o tempo e a natureza.
2. Análise franca da frase “abriu a boca da jumenta”
Texto hebraico:
וַיִּפְתַּח יְהוָה אֶת־פִּי הָאָתוֹן
Verbo: “פָּתַח” (patah) = abrir (literalmente: abrir fisicamente ou permitir ação)
Esse verbo é frequentemente literal, mas pode ser metafórico, como:
- Abrir os olhos
- Abrir a boca (para profetizar, como com Ezequiel)
Então, vamos direto:
Pode significar que Deus falou “através” da jumenta?
Sim, pode. Essa é uma interpretação legítima, especialmente se:
- Entendermos a fala como ação divina direta;
- Aceitarmos que a jumenta não teve consciência (não teve raciocínio próprio);
- E que “abrir a boca” é como “usar um canal”, como o Espírito usando um profeta.
O próprio Balaão parece não se assustar de imediato com o animal falando. Isso indica que ele talvez não tenha ouvido uma voz “animal”, mas divina — talvez com tom diferente, claro, sobrenatural.
3. Sobre a questão vocal do animal
- Uma jumenta não tem pregas vocais humanas.
- Não possui estrutura mental ou biológica para fala.
Conclusão lógica e teológica:
O mais razoável — mesmo para teólogos conservadores — é que Deus usou a jumenta como um canal de fala sobrenatural, não como um ser consciente ou pensante.
A fala foi milagrosa, mas não necessariamente articulada pela fisiologia da jumenta. Assim, dizer que Deus falou por meio da jumenta é uma explicação coerente com o texto e com a fé bíblica.
4. Comparação com a serpente
- Em Gênesis 3, a serpente tem raciocínio, estratégia e articulação teológica.
- O Novo Testamento identifica essa serpente com Satanás (Apocalipse 12:9; 2 Coríntios 11:3).
- Logo, ali claramente não é um animal comum, mas uma entidade espiritual com título de “serpente”.
Já na jumenta de Balaão:
- Não há personalidade.
- Não há argumento lógico ou malícia.
- Apenas repete uma situação.
Ou seja, não é uma possessão demoníaca ou angélica, mas um milagre isolado.
Conclusão direta e sincera
A frase “Deus abriu a boca da jumenta” não exige que o animal tenha tido pensamento ou estrutura vocal.
É plenamente aceitável e coerente com o texto bíblico e com a tradição judaica pensar que:
- Deus falou por meio dela, usando um milagre.
- A jumenta foi um instrumento, não autora da fala.
Assim como Deus usou uma sarça que não se consumia (Êxodo 3:2), ou escreveu com o dedo na parede (Daniel 5:5), a jumenta é um sinal (Números 22:28–30) — não um ser racional.
Resumindo
- Texto-base: Números 22:28–30
- Deus “abriu a boca da jumenta” — isso não implica que ela tenha pensado ou articulado como um ser racional.
- O hebraico permite entender que Deus falou através dela, como usaria qualquer outro instrumento.
- Não há estrutura física ou psicológica no animal para fala; portanto, foi um milagre pontual, como a sarça (Êx 3:2) ou a mão na parede (Dn 5:5).
- No Talmude (Pirkei Avot 5:6), a boca da jumenta foi criada no sexto dia da criação, mostrando que os judeus viam isso como algo preparado por Deus.
- Diferente da serpente do Éden, que parece agir com raciocínio próprio, a jumenta apenas reage — ela é sinal, não sujeito.
- O propósito do milagre é corrigir Balaão e mostrar que ele está mais cego que o animal.
Até a próxima.





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