Jesus está no meio quando tem mais de uma pessoa falando Dele (Mat 18:20)?

Tive que vir falar desse texto pois sempre ouvi isso, que Jesus está no nosso meio quando tem mais de um falando dele, como uma presença espiritual… mas será que é isso que o texto nos afirma? Vamos analisar.

1. Texto

“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mateus 18:20 – ARA)

No grego:

οὗ γάρ εἰσιν δύο ἢ τρεῖς συνηγμένοι εἰς τὸ ἐμὸν ὄνομα, ἐκεῖ εἰμι ἐν μέσῳ αὐτῶν.
(hou gar eisin dýo ē treis synēgménoi eis to emòn ónoma, ekeî eimì en mésō autōn)


2. Contexto imediato

Este versículo está no discurso de Jesus sobre a disciplina e reconciliação na comunidade (Mateus 18:15-20).
A sequência é:

  1. v.15-17 — Como lidar com um irmão que peca:
    • Confronto particular
    • Confronto com testemunhas
    • Comunicação à igreja
  2. v.18-19 — Autoridade de ligar e desligar (decisões da comunidade respaldadas por Deus)
  3. v.20 — Presença de Cristo onde dois ou três estão reunidos em Seu nome

Ou seja, o contexto não é um culto geral, mas a reunião da comunidade para tratar de assuntos espirituais sérios, especialmente disciplina e reconciliação.


3. Exegese

  • “dois ou três” — Expressão judaica para o número mínimo de testemunhas (cf. Deuteronômio 19:15). Indica validade jurídica/espiritual.
  • “reunidos” (συνηγμένοι) — Termo usado para assembleia convocada, não apenas encontro casual.
  • “em meu nome” — Não é apenas citar o nome de Jesus, mas agir sob Sua autoridade e em conformidade com Seu caráter.
  • “estou” (εἰμι) — Presente contínuo, indicando presença real e contínua.
  • “no meio deles” — Imagem veterotestamentária da presença de Deus no meio do povo (cf. Dt 23:14; Zc 2:10-11).

4. Hermenêutica

  • Aplicação comunitária — O texto dá segurança de que Jesus está presente para respaldar decisões e reuniões feitas com justiça, amor e sob Sua autoridade.
  • Não é uma promessa sobre quantidade mínima para “culto” — O versículo é muitas vezes usado para justificar cultos pequenos, mas o foco é a reunião para tratar de assuntos espirituais sérios.
  • Presença divina — Assim como Deus habitava no meio de Israel, Cristo promete estar presente na comunidade messiânica.
  • Princípio de comunhão — Reuniões em nome de Jesus, por motivos legítimos, são permeadas por Sua presença, independentemente de tamanho ou local.

5. Contexto teológico

  • Antigo Testamento — A necessidade de duas ou três testemunhas para confirmar algo (Nm 35:30; Dt 17:6) é base legal aqui.
  • Novo Testamento — Paulo ecoa essa prática (2Co 13:1; 1Tm 5:19).
  • Cristologia — Afirmação implícita da onipresença e divindade de Cristo.
  • Eclesiologia — Autoridade e disciplina são responsabilidades da comunidade local, não apenas de líderes.

6. Aplicação prática

  • Decisões ministeriais — Devem ser tomadas com oração, comunhão e submissão à autoridade de Cristo.
  • Reuniões de reconciliação — Promessa de que Jesus guia o processo.
  • Confiança — A comunidade não está só; Cristo legitima decisões tomadas com justiça.

O contexto inteiro de Mateus 18:15-20 está tratando de relacionamentos dentro da comunidade de fé e, mais especificamente, como lidar com o pecado ou má conduta de um irmão.


Resumo do foco do contexto

  1. Correção fraterna (v.15)
    • Primeiro passo: abordagem privada para restaurar a comunhão.
  2. Testemunhas (v.16)
    • Se não houver arrependimento, levar mais 1 ou 2 irmãos, seguindo a lei de Deuteronômio 19:15.
  3. Igreja (v.17)
    • Caso persista na má atitude, levar à assembleia da comunidade.
  4. Autoridade e respaldo de Deus (v.18-19)
    • As decisões tomadas de forma justa, unidas e sob a autoridade de Cristo têm peso espiritual.
  5. Presença de Cristo (v.20)
    • Garantia de que Ele está no meio quando esse processo é feito “em Seu nome”.

A expressão “estarei no meio deles” de Mateus 18:20 ecoa uma linguagem muito conhecida no Antigo Testamento, especialmente associada à aliança e presença de Deus entre Seu povo.

Uso no Antigo Testamento

A ideia de Deus estar “no meio” indica:

  • Presença protetora
  • Guia espiritual
  • Aprovação da aliança
  • Sinal de santidade no povo

Principais textos paralelos:

ReferênciaTextoContexto
Êxodo 29:45-46“Habitarei no meio dos filhos de Israel e serei o seu Deus.”Deus garante que Sua presença habitaria no tabernáculo e entre o povo.
Deuteronômio 23:14“Pois o Senhor, teu Deus, anda no meio do teu arraial… para te livrar.”Santidade no acampamento para manter a presença protetora de Deus.
Josué 3:10“Nisto conhecereis que o Deus vivo está no meio de vós…”Presença de Deus como prova de que Ele agiria na travessia do Jordão.
Salmo 46:5“Deus está no meio dela; jamais será abalada.”Segurança da cidade de Deus pela presença divina.
Zacarias 2:10-11“Eu virei e habitarei no meio de ti…”Promessa messiânica de presença direta de Deus no meio do Seu povo.
Conexão com Mateus 18:20
  • Jesus aplica a si mesmo o papel que antes era atribuído a Yahweh: Ele é o Deus que está “no meio” do Seu povo.
  • Essa identificação com a presença divina é um forte indicativo da Cristologia alta em Mateus: Jesus não é apenas um mestre, mas o próprio Deus presente.
  • No contexto de Mateus 18, “estar no meio” significa que Ele aprova e participa das decisões justas da comunidade, assim como Deus legitimava decisões e juízos feitos conforme Sua Lei no AT.

Implicação teológica

  • O versículo não é apenas conforto emocional, mas garantia jurídica-espiritual: se o processo de disciplina foi feito biblicamente, ele tem a aprovação do próprio Cristo.
  • Reforça a autoridade da comunidade agindo em unidade e santidade.
  • Demonstra que Jesus é o Emanuel (“Deus conosco”) não apenas no nascimento (Mt 1:23), mas também no exercício prático da vida da igreja.

Resumo

  • Contexto: O versículo está dentro do ensino de Jesus sobre disciplina e reconciliação na comunidade (Mt 18:15-20), não sobre cultos ou reuniões em geral.
  • Sentido original: “Dois ou três” remete à exigência de testemunhas (Dt 19:15). A ideia é que quando a comunidade se reúne para tratar assuntos espirituais sérios, sob a autoridade de Jesus, Ele está presente para legitimar as decisões.
  • Elementos-chave:
    • Reunidos = convocados intencionalmente para um propósito espiritual.
    • Em meu nome = agindo sob autoridade e caráter de Cristo, não apenas citando Seu nome.
    • No meio deles = presença divina ativa, como no AT, agora aplicada a Cristo.
  • Aplicação prática: Dá segurança e orientação para decisões comunitárias justas, especialmente em reconciliação e disciplina, garantindo que Cristo acompanha e valida quando feito segundo Sua vontade.

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