Nenhuma Escritura é de particular interpretação?

Hoje me deparei com uma passagem que o tempo todo usam para falar de interpretação individual da Bíblia, mas é isso mesmo que o texto fala? Vamos ao texto:

“Sabendo primeiramente isto: Que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” — 2 Pedro 1:20,21

Veja bem essa parte: “Que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação”. O texto fala sobre “interpretação”? Vamos ler no original e fazer uma exegese:

Texto Grego Essencial

τοῦτο πρῶτον γινώσκοντες, ὅτι πᾶσα προφητεία γραφῆς ἰδίας ἐπιλύσεως οὐ γίνεται·
“Sabendo primeiro isto: que toda profecia da Escritura não procede de interpretação própria.”

οὐ γὰρ θελήματι ἀνθρώπου ἠνέχθη προφητεία, ἀλλ᾽ ὑπὸ πνεύματος ἁγίου φερόμενοι ἐλάλησαν ἀνθρώποι θεοῦ.
“Porque jamais a profecia foi produzida por vontade humana; mas homens (de) Deus falaram movidos pelo Espírito Santo.”

1. O que o texto realmente fala?

Não está falando de “interpretar a Bíblia hoje”.
O texto fala da ORIGEM da profecia, não da “interpretação do leitor”.

A ideia central de Pedro é:

➡️ A profecia não veio da mente do profeta.
➡️ Não nasceu de interpretação (ἐπίλυσις) particular do profeta.
➡️ A fonte é Deus, não o homem.

Ou seja:

Não é o profeta quem decide o significado da mensagem.
É o Espírito que gera e guia a profecia.


2. O que significaA “particular interpretação”? (ἰδίας ἐπιλύσεως)

  • ἰδίας = “própria”, “particular”, “de si mesmo”.
  • ἐπίλυσις = “explicação, desdobramento, interpretação, origem, solução”.

No grego não é “interpretação do leitor moderno”.
É a interpretação/origem do profeta ao transmitir a profecia.

A ideia é:
O profeta não inventou, não deduziu, não interpretou por conta própria.

Mais literal:

“Nenhuma profecia da Escritura surge de explicação própria (do profeta).”


3. Contexto Imediato (1:16–21)

Pedro está dizendo:

  • ele não seguiu “fábulas engenhosas” (v.16)
  • ele viu Cristo na transfiguração (v.17–18)
  • isso confirma a palavra profética (v.19)
  • e agora ele explica por que a profecia é confiável:

Porque não vem de vontade humana, mas do Espírito.

Portanto:

O contexto é autoral e revelacional.
Não é hermenêutica moderna.


4. Então o texto fala sobre o quê?

Simples e direto:

Fala sobre a origem da profecia, não sobre interpretar a Bíblia.

Pedro está dizendo:

“Nenhuma profecia veio de interpretação pessoal do profeta.
Deus é quem guiou o significado e as palavras.”


5. Aplicação teológica correta

  • Deus é o autor primário da profecia.
  • O profeta é o canal, não o criador da mensagem.
  • Por isso, a profecia é confiável e tem autoridade.
  • Logo, nós devemos interpretá-la conforme o Espírito que a inspirou, não por opiniões pessoais.

O texto não proíbe o leitor de interpretar.
Ele proíbe a ideia de que a profecia surgiu da interpretação do profeta.


6. Por que muitos usam errado?

Alguns usam 2 Pe 1:20 para dizer:

“Ninguém pode interpretar a Bíblia sozinho.”

Mas essa leitura:

  • ignora o grego
  • ignora o contexto
  • usa o texto para defender autoridade denominacional/tradicional
  • transforma um texto sobre INSPIRAÇÃO em um texto sobre INTERPRETAÇÃO

É um mau uso do texto.


7. Conclusão da Exegese

O texto não fala de hermenêutica do leitor.
Fala da origem divina da profecia.

A profecia não nasce da interpretação do profeta.
Ela nasce da ação do Espírito Santo no profeta.

Em resumo

Pedro, em 2 Pedro 1:20–21, não está falando sobre como nós devemos interpretar a Bíblia hoje, mas sobre como a profecia surgiu lá atrás. Ele explica que nenhuma profecia da Escritura nasceu de “interpretação particular”, ou seja, não foi o próprio profeta quem inventou, decifrou ou criou a mensagem. A profecia não veio da mente humana, nem da vontade de alguém que decidiu profetizar. Pelo contrário, homens comuns, mas dedicados a Deus, falaram porque o Espírito Santo os impulsionou. Assim, Pedro está mostrando que a origem da profecia é totalmente divina. O ponto é simples: o profeta não interpretou nada por conta própria, ele transmitiu aquilo que o Espírito deu. Isso significa que o texto não está proibindo o leitor de interpretar a Bíblia; está apenas afirmando que a mensagem profética não nasceu da imaginação do profeta, mas de Deus. Por isso a Escritura tem autoridade, porque não veio de homens tentando explicar o divino, mas de Deus se revelando através deles.

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