O que significa Deus “resgatar” alguém em 2 Pedro 2?
Quando lemos que Deus “resgatou o justo Ló” em meio à destruição de Sodoma, uma pergunta surge quase automaticamente: Isso fala de salvação eterna ou apenas de livramento naquele momento histórico?
Essa dúvida é legítima, porque a Bíblia usa a palavra “salvar” de formas diferentes, dependendo do contexto. Por isso, 2 Pedro 2 precisa ser lido com calma e honestidade.
O que o texto realmente está dizendo?
Em 2 Pedro 2:7–9, Pedro não está discutindo como alguém é salvo diante de Deus, mas como Deus age quando o juízo chega. O verbo usado para “resgatar” ou “livrar” é o grego ῥύομαι (rýomai), que significa arrancar alguém de um perigo real e imediato.
O cenário deixa isso claro. Pedro cita três exemplos de juízo:
- Os anjos que pecaram,
- O mundo antigo no Dilúvio,
- Sodoma e Gomorra.
Em todos esses casos, o ponto não é arrependimento ou fé, mas condenação histórica. Dentro desse contexto, Ló aparece como alguém que não foi destruído junto, mesmo vivendo cercado de corrupção.
Pedro não diz que Ló foi salvo porque foi resgatado. Ele diz que Ló foi resgatado porque era justo — e essa justiça já era reconhecida antes do livramento. O texto não explica quando ou como Ló foi justificado diante de Deus; isso simplesmente não é o assunto aqui.
O argumento de Pedro é simples:
Deus sabe quem julgar e quem preservar.
Essa mesma lógica aparece na carta de Judas, que usa praticamente os mesmos exemplos para mostrar que Deus não falha ao exercer juízo (Jd 5–7). Já em Romanos, Paulo deixa claro que a salvação é definida pela fé e pela graça, não por livramentos circunstanciais (Rm 3–5). E Hebreus reforça que pessoas de fé podem ser preservadas em meio ao perigo sem que isso seja mérito moral (Hb 11).
Em resumo
- O “resgate” de Ló é livramento no juízo, não explicação da salvação eterna
- O verbo usado não é o termo clássico de salvação espiritual
- O texto trata de discernimento divino, não de conversão
- Ló não é apresentado como modelo moral, mas como alguém que pertence a Deus
- Livramento não cria salvação, mas revela cuidado
Uma percepção final
2 Pedro 2 nos ensina algo profundamente consolador: Deus não perde os seus no meio do caos. Ele não confunde quem lhe pertence com aqueles que o rejeitam, mesmo quando a vida desses justos é cheia de falhas, escolhas ruins e ambientes difíceis.
Ao mesmo tempo, o texto nos protege de um erro comum: achar que todo livramento prova espiritualidade, ou que toda preservação garante salvação eterna. Pedro não mistura as coisas. Ele apenas afirma que Deus é justo, atento e fiel.
Esse texto não responde tudo sobre salvação — mas responde algo essencial sobre o caráter de Deus: Ele julga com justiça e cuida dos seus com precisão.





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