Somente Maria é “Bendita entre as mulheres?”

Maria sim, é uma mulher bendita, ela é uma referência sem igual… mas ela foi a única?

A expressão “bendita és tu entre as mulheres”, registrada em Lucas 1:42, no contexto da saudação de Isabel a Maria, é frequentemente compreendida como uma declaração única e exclusiva. No entanto, uma análise mais cuidadosa do texto bíblico, à luz do Antigo Testamento e da tradição da Septuaginta, revela que essa formulação não surge de forma isolada, mas pertence a um padrão literário já existente nas Escrituras.

No Antigo Testamento, expressões semelhantes são utilizadas para destacar mulheres que tiveram papel decisivo na história do povo de Deus, como Jael em Juízes 5:24. Quando observamos a tradução grega desses textos, percebemos que a mesma construção — “bendita entre as mulheres” — é preservada, indicando continuidade linguística e teológica. Assim, o Novo Testamento não cria uma nova categoria de exaltação, mas insere Maria dentro de uma tradição já conhecida.

Vamos analisar no grego (NT) e no hebraico (VT) como está escrito, inclusive na Septuaginta.

Vamos de exegese:

Lucas 1:42 (grego – NT)

“εὐλογημένη σὺ ἐν γυναιξίν” (eulogēménē sy en gynaixin)
👉 “Bendita és tu entre as mulheres”

Juízes 5:24 (hebraico – VT)

“תְּבֹרַךְ מִנָּשִׁים יָעֵל” (tevorakh min-nashim Yael)
👉 “Bendita seja entre as mulheres Jael”

Agora o ponto chave: a Septuaginta (LXX)

A Septuaginta traduz Juízes 5:24 assim:

“εὐλογηθείη ἐν γυναιξίν Ιαηλ…” (eulogētheíē en gynaixín Iaēl)
👉 “Bendita entre as mulheres Jael”


Comparação direta

TextoExpressão
LXX (Juízes 5:24)εὐλογηθείη ἐν γυναιξίν
NT (Lucas 1:42)εὐλογημένη σὺ ἐν γυναιξίν

👉 O núcleo é praticamente idêntico:

  • εὐλογη- = bendita / abençoada
  • ἐν γυναιξίν = entre as mulheres

A diferença está só na forma verbal:

  • εὐλογηθείη → optativo (“seja bendita”)
  • εὐλογημένη → particípio (“bendita és”)

Ou seja…

Sim — na Septuaginta a expressão é essencialmente a mesma
Lucas usa linguagem já conhecida do AT grego (LXX) Isso cria um paralelo intencional: Jael – libertadora em Juízes e Maria – instrumento da redenção. Logo, essa expressão não é exclusiva de Maria. Já era:

  • uma fórmula hebraica de exaltação
  • usada para mulheres que tiveram papel decisivo na história de Israel

Existem outras passagens referentes a Lucas 1:42?

Sim — e isso é muito interessante: essa expressão (ou ideia equivalente) aparece em outros lugares, formando um padrão literário no AT que Lucas claramente ecoa.

1. Juízes 5:24 — Jael (o paralelo mais direto)

“Bendita seja entre as mulheres Jael…”

  • mesma estrutura
  • mesmo elogio elevado
  • contexto de vitória sobre o inimigo

Esse é o paralelo mais forte com Lucas 1:42.

2. Judite 13:18 — Judite (deuterocanônico – na Bíblia católica)

“Tu és bendita, ó filha, pelo Deus Altíssimo, mais do que todas as mulheres da terra…”

Aqui o padrão fica ainda mais claro:

  • mulher usada por Deus
  • derrota de um opressor (Holofernes)
  • linguagem de exaltação semelhante

Muito próximo do “entre as mulheres”.

3. Rute 3:10 — Rute

“Bendita sejas tu do Senhor, minha filha…”

Não tem “entre as mulheres”, mas:

  • mesma raiz de bênção (בָּרַךְ / eulogeo na LXX)
  • reconhecimento de virtude especial

4. Provérbios 31:29 — Mulher virtuosa

“Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas.”

Ideia equivalente:

  • exaltação acima das demais
  • linguagem comparativa (como “entre as mulheres”)

O padrão bíblico

Juntando tudo, surge um padrão:

“Bendita entre as mulheres” não é uma frase isolada. É uma fórmula de exaltação para mulheres que:

  • participam da ação de Deus na história
  • vencem ou participam de uma vitória
  • são destacadas acima das demais

Conexão com Lucas

Quando Isabel diz: “Bendita és tu entre as mulheres” em Lucas 1:42, não surge do nada, está ecoando esse padrão do AT (via LXX) e implicitamente coloca Maria na mesma linha de:

  • Jael (libertação militar)
  • Judite (libertação nacional)
  • outras mulheres exaltadas

Só que não é uma vitória local, mas a chegada do Messias.

Diante disso, é possível afirmar que a expressão “bendita entre as mulheres” não é exclusiva de Maria em termos linguísticos ou bíblicos. Trata-se de uma fórmula de honra já aplicada anteriormente a outras mulheres que foram instrumentos relevantes na ação divina ao longo da história de Israel.

Isso, contudo, não diminui a importância singular de Maria. Pelo contrário, evidencia que ela está inserida na continuidade da narrativa redentiva, agora em um ponto culminante: a vinda do Messias. Maria não é exaltada por meio de uma linguagem inédita, mas por meio de uma linguagem já consagrada, que reconhece sua participação extraordinária no plano de Deus.

Assim, o texto de Lucas não isola Maria das demais figuras bíblicas, mas a coloca ao lado delas — e, ao mesmo tempo, no centro do cumprimento da promessa.

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